QUEM PRECISA DE POLÍCIA?!
Estou de luto.
Luto por um menino que completaria quatro anos em pouco mais de vinte dias e que foi morto por aqueles que têm a obrigação de nos proteger.
Quem precisa de polícia, quando é ela que mata, agride, humilha e cobra um “extra” para “fazer um favor” a você? Quem precisa da polícia que pára seu carro à noite por um motivo “nobre”qualquer e só o libera depois que receber “o da cerveja”? Quem precisa da polícia que atira primeiro, não importa para onde, sempre dizendo que foi “troca de tiro”? Quem precisa da polícia que mata crianças depois de ver uma mãe desesperada jogar uma pequena mochila pela janela pedindo pro filho se deitar no chão?
Quem precisa de polícia?
Quem precisa ouvir as 10 da manhã, no intervalo para o café ou a caminho do ônibus, que a Polícia deu três tiros em uma perigosa criança de três anos que vinha de uma festinha de aniversário com seu irmão caçula e sua mãe?
Ou ainda um pedido de desculpas, tão corriqueiro e sem sentido, de um Secretário de Segurança que vive mais tempo às voltas com a Imprensa e tomando café com vidro moído que fazendo o que há muitos anos é necessário: LIMPAR A POLÍCIA CARIOCA!
Hoje, mais uma criança morreu vítima de tiroteio, medo, imprudência, ineficiência e principalmente, incompetência.
Era um menino lindo, que faria aniversário de 4 anos em menos de um mês. Numa festa que seus pais já deviam ter toda planejada, e bem no fundo do armário, escondido, o presente que ele tanto pedira.
Era um menino que estava indo pra casa depois de brincar com seus amigos, comer brigadeiro e pipoca em outra festa de aniversário. Que tinha tirado muitas fotos, corrido com os amigos ao redor da mesa do bolo, implicado com o irmão ainda com nove meses e levado umas broncas e um grande beijo da mãe antes de entrar no carro e colocar o cinto.
Eles estavam indo pra casa, com a mãe dirigindo com calma, fazendo planos talvez pro jantar ou pro dia seguinte das crianças.
Era uma noite normal, até que um carro preto acelerou no retrovisor e a mãe, passou para o acostamento dando passagem, provavelmente comentando como o motorista “era maluco por dirigir assim tão sem cuidado”. Ela viu as luzes da viatura policial e mais uma vez, deu passagem achando que eles estavam a procura daquele carro de poucos minutos.
Ao invés de alívio, viu armas sendo sacada e apontadas para seu carro, para seus filhos. E ela ouviu tiros. Muitos. Chorando, com medo e desespero, pegou a mochila do filho mais velho e jogou pela janela gritando que havia crianças ali. Gritando que só havia ela e suas crianças ali.
E então os tiros pararam e ela viu seu filho sangrando caído no banco. Abrindo a porta e sendo abordada pelos policiais, ela só pedia ajuda para seu filho, seu bebê tão ferido por nada.
No hospital, a notícia que, não cabia naquele dia tão divertido. Os tubos, as máquinas e a oração por um milagre. Nada mais restava a fazer.
Hoje, pela manhã foi diagnosticado a morte cerebral de um menino de três anos vítima de três tiros disparados pela polícia: um de raspão na orelha, outro na braço e um que atravessou seu crânio. Hoje à noite, seus pais deram o último beijo nele, pouco antes de desligarem os aparelhos.
Como sempre, o menino foi morto por bandidos perigosos que atiram a esmo, desejando apenas a morte e a destruição de todos os policiais da cidade. A versão da polícia é a mesma de todos os dias: troca de tiros onde não sabem de onde veio a bala que atingiu a criança. As promessas também são as mesmas de sempre: vão averiguar a fundo o caso, investigar e fazer justiça. E os culpados também tiveram o mesmo fim de sempre: fugiram a pé, subindo um morro qualquer, largando o carro para trás e não deixando rastros ou pistas.
Dor. Tristeza. Revolta. Medo.
A solidariedade de quem também perdeu um filho para a inaptidão moral. A revolta de um pai que perdeu um filho e a vida: que sempre acreditou no sistema e que hoje, recebe uma carta do Prefeito ou do Governador expressando “sinceras condolências”, ineficaz e que não vai devolver-lhe o filho. A indignação da imprensa. Os debates nas ONGs. Os atos públicos na Praia de Copacabana, na Avenida Rio Branco ou na Praça Saens Pena. As missas, as lágrimas, a raiva, o medo e a solidão de brinquedos, roupas e desenho na porta da geladeira.
Num lugar onde a polícia amedronta mais que o bandido que rouba seu carro com um 38 enferrjada noas mãos e trincado de pó e onde a incoerência de atos de homens fardados tira mais vidas que o fanatismo a um Deus, ficamos escondidos em carros blindados, apartamentos gradeados, filhos restritos ao play sempre com a presença dos pais, orações para quem quer voltar pra família no final de um dia comum e a proteção de um banheiro ou geladeira para o filho nos braços em meio ao tiroteio.
Estou de luto por um menino de três anos que adorava jogar bola.
Estou de luto por mim.





